
Famílias cortam 560 milhõesO fim do grande motor. A relação entre o consumo das famílias e a economia – as duas linhas andam sempre juntas. Isto acontece porque o consumo vale cerca de dois terços do PIB português. Este motor vai calar-se até ao fim de 2013 (prevê o FMI), com aperto no crédito, mais impostos, cortes salariais e desemprego recorde. O ajustamento violento já começou, mostra o INE. Mesmo antes de muitas das medidas da troika, a queda das despesas das famílias já igualou o recorde da recessão em 2009 (-2,1%) – nos primeiros três meses do ano as famílias cortaram 560 milhões de euros em gastos totais (comparado com o mesmo trimestre de 2010). A travagem nas despesas correntes é inédita: os portugueses cortaram 320 milhões em bens e serviços não alimentares (-1,7%, a maior queda desde pelo menos 1996) e moderaram muito o consumo alimentar (cresceu 0,4%, o ritmo mais baixo nos registos). Os bens duradouros registaram a queda esperada (9,8%). No consumo público as notícias são semelhantes: o Estado fez um corte recorde de 4,1% nos gastos (365 milhões).
Investimento ao nível de 1996
Já não é só na construção Outro dos motores gripados é o investimento. O INE mostra que a sangria dura já há dez trimestres, incluindo o primeiro deste ano (-5,9%) – o investimento está agora no valor trimestral mais baixo desde meados de 1996. A construção tem explicado boa parte das quedas, mas os dados do primeiro trimestre dão outros sinais. A quebra maior foi no sector de máquinas e equipamento. "É ainda mais preocupante porque é desinvestimento na capacidade de produção", admite Paula Carvalho. A economista do Banco BPI antecipa que as quedas continuem. "A perspectiva para a procura é dos factores que mais condiciona as decisões de investimento, como mostram os inquéritos", explica. O crescimento das exportações não chega para compensar o mercado interno em fortíssima contracção. E o Estado terá ainda de cortar no investimento público.
Empresas exportam mais
E importações caem. A receita da troika para baixar o défice externo passa por esmagar o consumo (ver ponto 1) para reduzir as importações – isto ao mesmo tempo que se tenta aumentar as exportações. O período pré-troika já mostra o início desse caminho: as exportações cresceram 8,5% no primeiro trimestre face ao mesmo período no ano passado. Foi o contributo da procura externa líquida (o saldo entre exportações e importações) que compensou parte da queda interna, mostra o INE. As importações caíram 0,8%, reflectindo o princípio do esmagamento do consumo das famílias. Com perspectivas muito fracas para o mercado interno será de esperar mais quedas nos bens e serviços importados. O efeito no desequilíbrio externo é positivo: o défice externo (o saldo daquilo que produzimos subtraído do que pedimos emprestado) foi de 6,6% do PIB (menos do que os 9,3% verificados no trimestre homólogo).
Resultado: PIB e emprego caem
Recessão já começou. A soma dos factores anteriores – os motores da economia – resulta no recuo da riqueza criada no país. O INE confirmou a contracção da economia no primeiro trimestre, com uma queda de 0,6% do PIB (menos uma décima face à estimativa inicial). A diminuição profunda da procura interna (caixas 1 e 2) só foi parcialmente compensada pelo contributo das exportações. A troika estima dois anos seguidos de contracção do PIB (2,2% este ano e 1,8% em 2012). Este primeiro trimestre, que já tem a influência de medidas duras de austeridade (cortes salariais, mais IVA, etc.) é a antecâmara desse ajustamento. As consequências no emprego são significativas: a economia destruiu 82 mil postos de trabalho entre o primeiro trimestre de 2010 e o deste ano, revelam os dados do INE. O Fundo Monetário Internacional apontou esta semana que em só em 2015 a taxa de desemprego será menor do que a prevista para este ano (12%).
in Isabe
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